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Entrevista: Albemar Araújo

Foto Paulinho Mafe

Em entrevista a Agenda Cultural do Recife, o autor Albemar Araújo fala da concepção do livro Ganga meu ganga – O rei, que será lançado no próximo dia 9 na Tenda de Umbanda Pai Francisco, às 19h, da realização e do sentimento em publicar a obra. Confira a entrevista feita pela repórter Raquel Freitas:

1-    A obra na verdade é uma publicação de uma peça teatral. Quando você a escreveu? E por que só agora resolveu publicá-la?

Meu texto foi escrito em 2007. Não é que somente agora eu ter resolvido publicar. Acontece que, somente agora, com o apoio do SESC, eu tive condições de publicá-lo. Esse trabalho magnífico que o SESC desenvolve com a Cultura local proporcionou este momento maravilhoso para mim, que é publicar Ganga meu Ganga - o Rei.

2-    Como é o processo de transcrição de uma obra cênica para o formato literário, isso está relacionado às regras linguísticas?


Nesse caso não é a transcrição de uma obra cênica para o formato literário. É a escrita dramática em si, posto que, normalmente, primeiro temos o texto dramático, a obra literária, para posteriormente termos a encenação. A obra é posta em cena. Ao se escrever uma peça teatral, pelo menos no meu caso, não se deve ter a preocupação com as regras linguísticas, mas com as regras dramáticas – a construção do personagem, sua linha psicológica. A carpintaria teatral. O conflito, etc.


3-   Logicamente o autor só fala ou escreve sobre aquilo que domina.Você ficou quanto tempo mergulhado nessa história? E como se deu o processo criativo?


O tema de que trata o texto de Ganga, é de forte ligação com a religiosidade afro-brasileira. Neste campo, eu vivo mergulhado desde 1972 – sou Omanojuobá de Xangô (o filho dos olhos do Rei Xangô). Então, com estas qualidades, como dizem Mário Ribeiro e Rubimar Constâncio no prefácio do livro “... as marcas da vivência de um Ojuobá de Xangô – cargo que confere a Albemar a competência de um pensamento estruturado que agencia a escrita desse trabalho ritualisticamente produzido (sic)”, eu me sinto apto a formar minha escrita, como o barro de Nana Buruku, que esteve presente na formação inicial da humanidade. Para concluir o texto, creio que levei aproximadamente seis meses. Na época, eu residia em Igarassu e escrevi o texto para os atores do Grupo Teatral Ariano Suassuna, da Escola Cosme e Damião, daquela cidade. Eles montaram e participaram de festivais estudantis, ganharam no Recife e em Caruaru, o prêmio de melhor espetáculo.


4-    Qual a importância de obras que falem a respeito da cultura africana? Você acredita que a carência das obras relacionadas à temática pode influenciar a falta de reflexão intelectual na sociedade pernambucana?

A filosofia do Candomblé não é uma filosofia bárbara, e sim um pensamento sutil que ainda não foi decifrado, com diz o professor Roger Bastide. Por isso cada obra, cada escrita, no entorno do assunto merece nosso reconhecimento, haja vista termos pouca literatura (principalmente dramática) ligada à Cultura e à Religiosidade Africanas. Meu texto tem um comprometimento com a verdade, uma vez que minhas palavras não se respaldam apenas nos conhecimentos empíricos ou mesmo teórico acadêmicos, mas no conhecimento prático do interior de uma Casa de Santo – de um terreiro. De quem vivencia a realidade da incorporação de um Orixá ou mesmo nas comunicações dos oráculos de Ifá. Quanto à reflexão por conta da sociedade, nós já começamos a ver e ouvir o sotaque africano, isso já há algum tempo, nos meios mais sofisticados. Se os gregos nos legaram a base da cultura e da própria religião, os africanos complementaram essa cultura e essa religião, com seus saberes milenares.


5-   Como você pretende estimular os leitores com sua obra?

Na Prefeitura do Recife (leia-se Gerência Operacional de Formação Cultural), temos um projeto que leva a leitura de textos de autores pernambucanos aos mais inusitados recantos de nossa cidade. Constantemente lemos texto dramáticos e debatemos a importância deles e dos seus autores. Minha obra pretende se inserir nesse universo de autores que proporcionam o sonhar através da leitura de uma peça teatral, que se não montada, faz viajar quem a lê. No caso de Ganga, o leitor mergulhará no universo da religião africana de uma forma compreensível e agradável. Viajará nos ventos de Iansã, ouvirá o trovão de Xangô, dançará com a meiga e faceira Oxum ou mesmo galopará na garupa do cavalo belicoso Obá. 

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